quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pa-pe-pi-po-pu.

Clara, venha jantar!
Clara, vá tomar banho!
Clara, vá estudar!
Clara, venha para a varanda!
Clara, vá comprar pão!
Clara, vá dar banho no cachorro!
Clara, levante e vá viver!
E eu deitada na cama lendo Rilke.

Exato.

Eu pensei em várias coisas para botar aqui. Depois eu pensei que nada interessava e desisti.
Mas a arte tem que interessar?
E chamar o que eu penso de arte – que prepotência!
Mas é arte a partir do momento em que ponho no papel, não?
Pensemos: se digo que sou escritora – ou mesmo finjo – tudo que escrevo fruto de minha vontade de fazer literatura é arte, não?









Respirou fundo para reconhecer a inconstância redemoíntica revolvendo-a em sensações de reluzente fugacidade. Como era de se esperar. E então sentiu, porque só sentindo poderia vir a pensar. E o pensamento veio, na velocidade de tudo aquilo que quer ser agora e não depois. Num instante viu dentro de si enormes esquemas filosóficos de transcendência sensacional! Pulou na pena para escrever.
E nesse gesto tudo passou a ter tão pouca importância.
Pensou mais. E nesse pensar de botar para fora pensou que não adianta tentar se passar para o papel. Papel não agüenta gente inteira. Se só podia ser parte, de que adiantava escrever aquilo tudo?
Perdeu a viagem. Em sua saída suspirante de cena, deixou registrado:
“É mais bonito dentro de mim.”

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O bloco da família vai atrás.

Esse é só mais um textinho para tranquilizar meus amados parentes. Não estou depressiva, arrasada ou acabada. Acontece que a escrita exige do autor toda a Vida. Não se escreve por metades de si. O que vem de mim vem inteiro, e esse inteiro diz respeito a dores, alegrias, gritos, trapos, jóias, céus e chãos, tanto os que já foram quanto os que ainda serão. Então sosseguem: ninguém é só riso ou só choro, ainda que na arte derrame o extremo de cada fração de si.

Eu tô legal. Muitos beijos na madrinha.


(Ouvindo: Além do que se vê - Los Hermanos.)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Então bebe.


Eu estou com sede. E acho que estou com sede de tudo.
Eu estou com sede de água. A pele de minha boca repuxa até a garganta e a secura vai até o fundo. Parece que a sede enxuga o que deveria estar molhado. E eu olho o copo dos outros sentindo o líquido que não é meu escorregar por dentro. E eu desejo tanto este copo d’água. Este aqui, que está bem na minha frente e eu não apanho, porque preciso – preciso porque mando em mim – sentir a sede. Deve ser tão bom a água escorrendo gelada, engolir a vida. Tenho o copo em mãos, mas não bebo. Sinto sede.
Eu estou com sede de entendimento e de compreensão. Eu quero ser capaz de dizer por que. E se entender, quero ser entendida. Tudo e todos são diferentes quando um faz, o outro assiste e nenhum sabe. Fez o quê? Fez por quê? Quer o quê? E compreender, quem compreende? Eu tenho sede de espelhos nos corações dos homens. No meu, muita. Que um estenda a rosa e o outro entenda a flor. E compreenda por que esta lhe foi estendida. Tenho sede de entender os outros. Parecem perto como meu copo, mas a água não me vem aos lábios. Quero beber-vos em grandes goles, e ser capaz de suportar e amar vosso gosto.
Eu tenho sede de querer. Ou de nomear o que quero. Como reconhecer o rosto com o qual quero topar na próxima esquina (ou mais longe, talvez) se não sei como chamá-lo? Eu tenho sede de querer muito, muito, e ter certeza disso. E desse querer fazer o que é físico. E para isso que é físico, olhar com orgulho e vontade de querer mais. Mas se não quero nem sei, o que fazer com o monte de tudo transformável que tenho em mãos, meu futuro massa de modelar? E vou parar de jogá-lo de uma mão à outra, sentindo o bolo disforme que é meu e pode ser qualquer coisa?
Eu sinto sede de palavras. De frases encadeadas, parágrafos, letras, papel, caneta, linhas, lápis, traços livres, cheiro de madeira de lápis, grafite no rosto... E de rasgar papel. E de usar o papel de novo. E de respirar e me sentir deitando em cima do que escrevo.
Eu tenho sede de fazer. Pensar, planejar e fazer de verdade. Sede de achar que dá. Que passo. Que sim.
Nossa, como tenho sede de ir.
Eu tenho sede de música. De me entregar como quem se entrega a um beijo à música que realmente faz som dentro. Música que alimenta e mata a sede me põe de joelhos no chão e olhos no céu.
Eu tenho sede de ver. Virar a cabeça para todos os lugares e deixar gravando.
Eu tenho sede de coragem e de parar de fingir que realmente me importo quando preferiria estar longe dali.
Eu tenho sede de explicação, mas isso eu já disse.
Eu tenho sede de amor. E de verdade. E de segurança. E de certeza. E de confiança. E de amizade. E de gratidão. E de sentir. E de estudar. E de aprender. E de lutar. E de contar. E de pegar. E de criar.
Eu tenho sede de rosas.
E tenho muita, muita sede de mim.



Para acabar com a sede, bebe-se.
Então eu choro, ouço uma música, olho para cima, olho para frente, pego o copo d’água e bebo.

Fôlego.

É esse embolorado de coisa aqui no peito, que só me faz querer correr, correr, correr, correr,
correr, correr, correr, correr, , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr (correr de mim) , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr (pra ver se eu esqueço o novelo cheio de nó em algum lugar e sigo) , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr (até tudo ficar mecânico e eu não precisar pensar) , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr (para pelo menos parecer que eu quero chegar a algum lugar) , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr (correr dos outros) , correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr, correr.
Mas eu não corro. E olhar para os lados enquanto eu caminho me incomoda.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pode Ser Azul.



“Por que você não sobe no céu de para quedas e abre uma nuvem?”
Um menino de seis anos olhou para o cordão com um pingente em forma de chave que ela carregava no pescoço e disse.
Porque era a chave do céu. E, se dá para abrir o céu, a gente vai até lá e abre.
Porque esses momentos são necessários. Esses em que a gente, que se acha mais alto, percebe como é mais baixo.
E porque aos seis anos tudo é poesia.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Muito, muito, muito.

Era uma vez um menino muito, muito, muito alto. Ele era tão alto que as nuvens ficavam em volta da cabeça dele e quando ele falava fazia vento. Vento não, brisa. Porque era muita palavra doce e leve.

O menino tinha muitas, muitas, muitas dúvidas (acontece que era um menino muito, muito, muito inteligente, e meninos assim têm gosto em perguntar e saber mais). Tendo muitas dúvidas, procurava muitas, muitas, muitas respostas. Encontrava não tantas. Mas a procura já valia boa parte da energia gasta em questionar. Questionar alimenta, sabe? Dá trabalho, mas fortalece. E procurar a resposta dá vigor.

Um dia ele botou o pé para fora de casa e viu um céu muito, muito, muito cor de rosa. Olhou para os dois lados da rua muito, muito, muito vazia e entendeu pouco. O céu sempre fora tão, tão, tão azul, por que agora tão cor de rosa assim? Se tivesse alguém junto dele, olhando como ele para onde ele olhava, poderia perguntar se via rosa também. Mas não havia ninguém acordado ainda. O menino acordava muito, muito, muito cedo todo dia, para poder correr até a praia e ver o sol nascer. Mas nesse dia não só o sol não tinha nascido como o mundo tinha acordado cor de rosa. E o menino olhou para as nuvens em volta de sua cabeça e não via nenhuma que não fosse colossalmente, fabulosamente, normalmente branca. Ora, as nuvens não haviam mudado. Nem nada lá embaixo. A grama era verde, o asfalto era preto (ou cinza), os pombos eram cor de pombo, a areia (lá no fundo) era bege ou branca, os prédios tinham as cores que tinham um dia atrás. Só o céu que tinha resolvido trocar de roupa. Mas não se incomodou. Gostava de rosa. Não parou de se perguntar o por quê, mas não pensou nem por um segundo que era errado. Que seja rosa, azul, amarelo ou verde: quero o céu como o céu se quiser.

E, sim, o menino tinha muito, muito, muito amor. Um amor muito, muito, muito grande. Tão grande que era difícil conseguir camisas para ele; não por sua altura, mas por causa de seu coração, tão largo e tão cheio. Por isso, o susto do céu rosa durou um pouco menos. O amor era tão verdadeiro, tão puro, tão intenso, que não seria exatamente uma surpresa ele um dia descobrir que uma parte do amor havia fugido de dentro dele e ido parar do lado de fora. Era de fato muito, muito, muito grande. Pensava ele que provavelmente grande demais para caber dentro de alguém, mesmo em um alguém tão alto como aquele menino. Logo, se o céu estava rosa para ele (até onde se sabia), era porque estava colorido com amor, nada mais justo e claro.

Ele é muito, muito, muito, bonito. E aceita o céu da cor que for, nunca parando de amar com força e gratidão tudo no mundo que reflete o amor de bem. Andou até a praia, sentou numa pedra muito, muito, muito grande e muito, muito, muito boa, deu um suspiro muito, muito, muito profundo e viu o sol nascer.

O sol nasceu violeta.