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sexta-feira, 16 de abril de 2010

O bloco da família vai atrás.

Esse é só mais um textinho para tranquilizar meus amados parentes. Não estou depressiva, arrasada ou acabada. Acontece que a escrita exige do autor toda a Vida. Não se escreve por metades de si. O que vem de mim vem inteiro, e esse inteiro diz respeito a dores, alegrias, gritos, trapos, jóias, céus e chãos, tanto os que já foram quanto os que ainda serão. Então sosseguem: ninguém é só riso ou só choro, ainda que na arte derrame o extremo de cada fração de si.

Eu tô legal. Muitos beijos na madrinha.


(Ouvindo: Além do que se vê - Los Hermanos.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Muito, muito, muito.

Era uma vez um menino muito, muito, muito alto. Ele era tão alto que as nuvens ficavam em volta da cabeça dele e quando ele falava fazia vento. Vento não, brisa. Porque era muita palavra doce e leve.

O menino tinha muitas, muitas, muitas dúvidas (acontece que era um menino muito, muito, muito inteligente, e meninos assim têm gosto em perguntar e saber mais). Tendo muitas dúvidas, procurava muitas, muitas, muitas respostas. Encontrava não tantas. Mas a procura já valia boa parte da energia gasta em questionar. Questionar alimenta, sabe? Dá trabalho, mas fortalece. E procurar a resposta dá vigor.

Um dia ele botou o pé para fora de casa e viu um céu muito, muito, muito cor de rosa. Olhou para os dois lados da rua muito, muito, muito vazia e entendeu pouco. O céu sempre fora tão, tão, tão azul, por que agora tão cor de rosa assim? Se tivesse alguém junto dele, olhando como ele para onde ele olhava, poderia perguntar se via rosa também. Mas não havia ninguém acordado ainda. O menino acordava muito, muito, muito cedo todo dia, para poder correr até a praia e ver o sol nascer. Mas nesse dia não só o sol não tinha nascido como o mundo tinha acordado cor de rosa. E o menino olhou para as nuvens em volta de sua cabeça e não via nenhuma que não fosse colossalmente, fabulosamente, normalmente branca. Ora, as nuvens não haviam mudado. Nem nada lá embaixo. A grama era verde, o asfalto era preto (ou cinza), os pombos eram cor de pombo, a areia (lá no fundo) era bege ou branca, os prédios tinham as cores que tinham um dia atrás. Só o céu que tinha resolvido trocar de roupa. Mas não se incomodou. Gostava de rosa. Não parou de se perguntar o por quê, mas não pensou nem por um segundo que era errado. Que seja rosa, azul, amarelo ou verde: quero o céu como o céu se quiser.

E, sim, o menino tinha muito, muito, muito amor. Um amor muito, muito, muito grande. Tão grande que era difícil conseguir camisas para ele; não por sua altura, mas por causa de seu coração, tão largo e tão cheio. Por isso, o susto do céu rosa durou um pouco menos. O amor era tão verdadeiro, tão puro, tão intenso, que não seria exatamente uma surpresa ele um dia descobrir que uma parte do amor havia fugido de dentro dele e ido parar do lado de fora. Era de fato muito, muito, muito grande. Pensava ele que provavelmente grande demais para caber dentro de alguém, mesmo em um alguém tão alto como aquele menino. Logo, se o céu estava rosa para ele (até onde se sabia), era porque estava colorido com amor, nada mais justo e claro.

Ele é muito, muito, muito, bonito. E aceita o céu da cor que for, nunca parando de amar com força e gratidão tudo no mundo que reflete o amor de bem. Andou até a praia, sentou numa pedra muito, muito, muito grande e muito, muito, muito boa, deu um suspiro muito, muito, muito profundo e viu o sol nascer.

O sol nasceu violeta.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

E nós subimos em árvores.







(se possível, leia ouvindo Open Your Eyes, do Snow Patrol.)


O mundo corre para todos os lados. Cada lado que vai é um lado que volta. Em toda manhã há alguém que abre a janela, olha o sol nascendo no que já foi e respira fundo para sentir coisa que ainda vai ser. E que mesmo vivendo no meio de tudo, toma café e anda. Faz o que precisa para não ser núcleo estático, mas para se mexer e poder olhar de fora também.

Tem planetas que giram junto da Terra, que gira em volta do Sol. Em outros lugares da galáxia tem outros planetas, que giram em volta de outras estrelas. Em outros lugares do espaço tem outras galáxias (a gente é pequenininho). Em uma pessoa há vários espaços. Desses espaços, há os que são preenchidos por outras pessoas, os que outras pessoas fizeram, os que são feitos pela própria pessoa que os tem, os que só vão sumir quando a pessoa lembrar de algo que já esqueceu, os que só se vão quando a pessoa esquece de algo (se bem que cada lembrança implica em um esquecimento). Tem espaço onde cabe muita coisa diferente. Tem espaços que abrem mais espaços e mais um montão de tipos de espaços - tem até espaço que já acabou e ninguém viu. Os que sobram (os espaços físicos), são todos preenchidos pos coisas formadas por átomos. Nos átomos tem elétrons, que giram em torno de um núcleo. Em tudo que se vê (e em parte do que não se vê) tem bilhões de átomos diferentes, com bilhões de elétrons rodando. Eles são pequenininhos. Nosso planeta será elétron de quê?

Tem gente que vai andar na praia. Que depois de suar bastante, de botar bastante água para fora, senta e põe água para dentro. Mas olha o mar também, o que já é bom.

Tem gente que vai andar no coração dos outros. Que depois de pisar bastante, de fazer a pessoa botar bastante água para fora, deixa alguém andar no próprio coração. E põe um monte de água para fora. Mas olha o amor (amar) também, o que já é bom.

Tem um monte de pessoas andando lá fora. E animais. E a diversificada mistura dos dois. Eles andam o tempo todo. E se um pára, os outros continuam andando, em todas as direções. Ninguém anda sozinho (uma direção é sempre compartilhada).

Tem muitos lugares lá fora. Ermos e habitados, vibrantes e sóbrios, alegres e tristes. Que mudam de tamanho, dependendo de quem vê. Que acolhem. Que fazem rir ou chorar. E chorar.

Tem um céu lá fora. Que (também) muda de cor e tamanho, dependendo de quem vê, como e quando.

Tem gente que morre, sim. E tem gente que nasce. Tem gente que vive e tem gente que existe.

Tem gente que sabe contar histórias. Tem gente que sabe ouvir. Tem gente que sabe olhar. Tem gente que sabe cozinhar. Tem gente que gosta. Tem gente que precisa.

Tem gente que abraça, tem gente que beija. Há os que batem. Há os que sentem muito. Há os que sentem medo. Há os que sentem medo e dizem que não, só para proteger outros.

...

Porque tem gente que ama.
E nós, que subimos em árvores, queremos ver tudo de cima.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Só vale pra um.

E então me vem um dizendo que tenta conhecer Deus. Escreve para ele e tudo. Mas Deus não responde.
- Daniel, você tem colhido poucas flores.
E, sempre que possível, volte para o banho de chuva.


(Ouvindo: The Kids Don’t Stand A Chance, Vampire Weekend.)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mas veio assim.

Olha... Eu realmente gostaria de escrever sobre coisas felizes e cintilantes. E eu vou. Mas enquanto eu escrevo, dou uma olhada nos arquivos antigos e acho uma pilha de letras sangrando. De vez em quando vem e dói, sabe? Aí eu escrevo (quando dói sai coisa bonita). Então dessa vez eu vou postar mais uma vez coisa ferida. Contudo, prometo procês que volto pra postar texto que é belo e leve de ler, ok?
E, novamente, não se preocupem. Não sofro sempre. Quando vem, vem só durante o tempo de sentar e passar pro papel.
Espero que me perdoem a dor, se esta for transferida.





(O título do texto é esse vídeo aqui:)
http://www.youtube.com/watch?v=dvgZkm1xWPE&feature=fvst

Dei de escrever agora, justamente por não escrever há muito. Continuo a escrever por não sentir há muito. Ou sinto coisas demais há muito.

Eu sinto muito.

Eu sinto por mim. Eu sinto por ainda me perceber caída quando já acreditava estar tão de pé.
Eu era tão grande e forte. O que houve? Em que canto da rua eu me joguei e por que é tão longe do canto onde me enrosco agora, sem cobertor e sem chão?

“O que você está sentindo neste exato momento?”... A resposta vem fácil, que outra seria? Mas por que, meu Deus, por que dói? QUAL A RAZÃO DE AINDA DOER, ONDE AINDA DÓI? Que ferida tão profunda foi essa que parece aberta pra sempre, por motivo algum? Minha vontade é gritar de dor. E agora é diferente, algo que agora é e não era antes: Não acho culpado. Não posso apontar ninguém em louca satisfação de achar uma desculpa e forçar minha mente a puni-lo com o desagrado e meu fingido ódio. Tudo isso dói de graça e por ninguém.

Uma faísca. Foi o suficiente pra me atear fogo e perder a pele que me segurava inteira no nada de mim.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Já passou.

Breve explicação e contextualização:
Encontrei isso no fundo de uma gaveta, enterrado em um caderno qualquer. Foi escrito em um momento muito delicado, muito extremo, de sofrimento mesmo. Gostei de ler por perceber que havia passado. Lembro que quando escrevi achava que não passaria nunca. E passou. Posto aqui para simbolizar minha vitória, meu reencontro.
Além disso, poderão ver como sou quando escrevo para mim e só para mim. Esse texto nao tem filtros. Perdoem eventuais sustos.
Mas já passou.





Mas graças a Deus eu posso escrever.
Eu parei diante da parede, estendi as mãos e através da pedra fria pude sentir do outro lado a sombra de indesejável lembrança. O fato de existir uma prova concreta de que já fui feliz como fui, já quis como quis, já amei como amei e já amaram como amaram me incomoda profundamente. Da mesma forma que me lembra do bom que foi, esfrega na minha cara a conjugação no passado de cada verbo relacionado ao amor que tive. Perfeito ou imperfeito, o pretérito me dói, qualquer que seja o ângulo analisado. Saber que a personificação de tudo isso anda por aí me dói. Minha dor tem nome, rosto, anda sempre longe de mim e nunca ausente.
Aliso a parede e percebo outras sombras. Os fantasmas só fazem chegar. A intenção – que só pode ser descrita como objetivo – de não tornar nada real é evidente e física. Por mais que afirme que o medo já foi, não deixo espaço para transformar as imagens de futuro em presente. Meu maior presente seria meu passado agora.
Estou machucada, sinto dor. Tentei curar com outros e com isso acabei ferindo alguns – coisa que jamais desejei que acontecesse. Mesmo que não proposital, mesmo que só como conseqüência, é terrível ter de suportar a dor de provocar dor. É constante. Mesmo quando rio. Mesmo quando respiro fundo. Não pára. A vida é assim, as coisas continuam, mas e então? Sofri (sofro) por tanto tempo e o máximo que consigo fazer é alguém sangrar pelo mesmo punhal que me foi enfiado no peito?
E quando penso – quando há o respiro de alívio – que encontrei uma cura, que achei braços que me acolhessem como no passado, que me entregassem a mim de novo, esses braços apertam, quebram, ferem, partem pedaços com o maior amor do mundo e o pouco que restou inteiro é destruído. É caco de vidro no chão, daqueles que entram na pele e fazem sangrar, mas que a gente não vê.
Por que eu choro a dor dos outros se ninguém chora a minha? Toda noite, toda tarde, chorar por muito mais de um. É justo? Não digo que minha dor é maior ou menor que a de ninguém, mas é minha.
Meus dedos já sangram de tanto agarrarem-se ao relevo das pedras do muro. Com uma das mãos, aperto o outro braço até que minhas unhas penetrem minha carne insensível (uma tentativa de distrair a dor de dentro). Cansada, há essa hora, de ouvir meu riso triste ao notar – de novo – que físico é nada. Aliás, não. Físico é algo? Minha dor é tão grande que passou há muito a barreira da mente e é física. Aproximadamente um palmo à direita do coração, no centro do peito. Dói ali. Quando choro. Quando respiro. Quando penso. Vai ver é tão forte que já é nada: é corpo, é físico.
Diria que gostaria que amor preenchesse o vazio dentro de mim. Mas não há vazio. Há o vazio do vazio. Falta espaço. Tudo parece ocupado com algo pegajoso, lamacento, extremamente brilhoso em alguns pontos. Vinte e cinco mil emoções rodando o tempo todo, com todos os reflexos físicos de cada uma delas. E eu só quero que pare.
Por que quem eu amo não me ama? Por que quem eu quero amar não me deixa amar? Por que eu não consigo amar quem me ama?
Não é justo, isso não é justo! E eu sei que não é só querer amar! Não é só amor que eu quero! É o amor dele! Ah, por que é tudo assim? Se só piora, se só piora, eu não quero continuar. Não sei se quero.
Minto. Quero sim.
“Why are you scared?”
Porque sei que amor é sol.
Eu cansei de me ferir.
Eu cansei de ser longe.
Eu cansei de não ter (alguém).
Eu cansei de não pertencer.
Eu cansei de não querer.
Eu cansei de não quererem.
Eu cansei de ver que só penso em mim.
Eu me quero de volta. Por favor, me traga de volta. Falo para a parede, baixinho. Colo por alguns segundos os lábios na superfície fria e suja. Falo para a pedra procurando falar com Deus. Senhor, traga-me de volta. Me ouço gritando por mim, mas não sei onde me perdi. Se o Senhor me encontrar, diga que sinto saudades. Que me espero em casa, com comida, agasalho, papel e lápis. E que eu me sinta confortável para contar o que aconteceu comigo. Vou querer ouvir cada palavra. Eu amo esse eu que está perdido, Deus. Ele é meu vazio cheio de amor. Tenho amor o tempo todo, em qualquer pedaço, mas esse meu eu perdido me equilibra no que sou. Deus, traga-me de volta para mim.




Afasto-me da parede. Por muito tempo ainda fico tocando as pedras. Depois me afasto, com o olhar certamente perdido no sol.



(Em tempo: ao largar a lapiseira e fechar o caderno, vivi alguns momentos comigo. Reconheci-me de volta. Se for permanente, Deus é bom. Se não for, também.)

(Passei tanto tempo tentando fugir de mim e agora corro para me reencontrar. O mesmo acontece com meus outros amores. Não quero que minha vida seja uma corrida.)